2010-12-24


Entrevista com Manuel Georget e Vincent Duse sobre a Plataforma 4 para o próximo congresso do Novo Partido Anticapitalista (NPA)

O Jornal Palavra Operária convidou duas das principais referencias operárias desta plataforma, Manuel Georget e Vincent Duse, para falar conosco. Manuel Georget é secretário geral do sindicato CGT EGP Dreux e delegado da fábrica de televisores Phillips Dreux, que acaba de fechar suas portas depois e anos de luta contra demissões e desalocação, que culminaram em uma curta experiência de controle operário durante janeiro passado. Foi militante da Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), que precedeu ao NPA (Nova Partido Anticapitalista) durante quase 30 anos, encabeçou a lista do NPA no departamento Eure-et-Loir nas últimas eleições regionais e é membro da coordenação do CTR (Coletivo por uma Tendência Revolucionária). Vincent Duse é operário da fábrica Peugeot em Mulhouse (com mais de 10.000 operários) e durante 10 anos foi secretário geral do sindicato CGT na fábrica. É membro do Comitê Político Nacional do NPA e da coordenação da CTR.

Em fevereiro de 2011 o NPA terá seu 2º Congresso, o primeiro desde sua fundação. Entre as diferentes plataformas, as tendências que apresentam posições e textos alternativos para o Congresso, está a Plataforma 4, impulsionada pelo Coletivo por Uma Tendência Revolucionária (CTR), dentro do qual militam os camaradas da FT-QI, organização internacional da LER-QI, na França. Esta plataforma finalmente pôde ser validada na última reunião do Comitê Político Nacional, depois de ter sido eliminada pela direção majoritária durante a reunião precedente, sob a acusação de que contrastava com os princípios fundadores desse partido. A campanha democrática e a manifestação de militantes e dirigentes que rechaçaram este ataque à democracia mais elementar, assim como o giro na situação ocasionado pelo poderoso movimento de massas que cruzou a França, fizeram retroceder a maioria da direção. Trata-se de uma vitória democrática e política para aqueles que se reivindicam revolucionários.

A agência de imprensa AFP publicou logo depois da reunião do CPN: “Também apareceu uma quarta tendência para ‘redefinir o NPA como um partido revolucionário trotskista’ ao redor de um operário da Peugeot Mulhouse”, declarou na à AFP Pierre-François Grond, do comitê executivo do NPA.

JPO: Vocês apresentaram uma plataforma para o próximo congresso do NPA. Como foi formada e em que se opõe às outras três plataformas?

M.G.: Era indispensável responder à política da direção e aos elementos direitistas do NPA que tinham levado o partido a um impasse. Era necessário levar adiante um combate no plano ideológico e político, para que o NPA seja um partido revolucionário, um partido que assimile a tradição dos grandes pensadores marxistas revolucionários, de Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Lênin e Trotsky, e que seja uma ferramenta real nas mãos dos trabalhadores conscientes para derrotar o capitalismo, e destruir seu Estado, e para construir um governo próprio dos trabalhadores.

V.D.: Eu formei parte do núcleo de membros do CPN que deu origem à oposição B. Depois de um tempo estava convencido da necessidade de construir uma tendência marxista revolucionária no NPA, mas em um momento dado me dei conta que os dirigentes da posição B não queriam isso. Tudo o que faziam era buscar formar uma “nova maioria” com o compromisso com um setor da direção majoritária. Foi aí que decidi, com outros camaradas de Alsacia, deixar a posição B para construir o CTR. Depois conheci os camaradas da FT-QI e compartilhamos muitas idéias políticas. Eles me falaram de seu projeto de construir uma tendência com os que já estavam na tendência CLAIRE, mas também com outros camaradas operários como Manu, que estavam dispostos a comprometer-se neste combate.

Na minha opinião, o que nos diferencia do conjunto das plataformas do NPA é que somos os únicos que lutamos abertamente por um partido operário e revolucionário e que rechaçamos as ambigüidades do NPA. Por isso sofremos tanta repressão da direção, que esteve a ponto de pisotear os estatutos do partido e de não validar nossa plataforma, quando nada lhes dava direito de o fazer! E eu mesmo era membro da direção! Finalmente foram obrigados a validar, ainda que isso não lhes impeça de seguir fazendo uma campanha permanente contra a nossa, acusando-nos de ser hostis ao partido.

JPO: Seguimos os acontecimentos de outono na França. Quais foram suas participações e que balanço fazem do movimento?

V.D.: A primeira conclusão é que, pra além do resultado imediato do conflito, a classe operária levantou a cabeça. Contra todo o discurso de Sarkozy e dos patrões, setores concentrados do proletariado como os trabalhadores das refinarias e dos portos, demonstraram que, sem eles, o país não poderia funcionar. E ainda quando finalmente o governo fez passar sua reforma, graças à colaboração ativa das direções sindicais, esta lição foi muito importante, permite começar a restabelecer a confiança da classe em suas próprias forças, não pode ser apagada e segue seu curso, inclusive entre operários que não entraram em greve como nas automotrizes. Na Peugeot era surpreendente ver até que ponto os operários que não faziam greve estavam contentes quando bloqueamos durante mais de duas horas toda a planta. Nas fábricas se sente uma politização nova e muito descontentamento, sobretudo nos jovens precarizados. É uma bomba relógio que explodirá cedo ou tarde.

Nesta situação, um partido nacional como o NPA poderia cumprir um papel muito importante, se estivesse implantado verdadeiramente nas grandes concentrações operárias, se tivesse um programa claro que articulasse a questão da greve geral com a do poder político, se impulsionasse em todas as partes a construção de instâncias de auto-organização, fossem comitês de greve ou as Assembléias Gerais interprofissionais. Em resumo, para nós o balanço do movimento faz mais que reforçar nosso combate por um partido operário e revolucionário.

M.G.: No bairro de Eure-et-Loir nossa luta foi por colocar em pé uma tendência mais radical na CGT, em oposição à política levada adiante pela burocracia nacional. Esta tendência conseguiu manter certa pressão sobre as direções nas instâncias sindicais departamentais, que se viram obrigadas a apoiar as greves dos setores mais radicalizados. Durante varias semanas, organizamos Assembléias Interprofissionais CGT, bloqueios de plantas industriais, operações de pedágio gratuito, envio de delegações de trabalhadores para apoiar outros piquetes de greve como o da refinaria Total em Grandpuits.

Uma jovem camarada, estudante secundarista, da Tendência Revolucionária do Comitê do NPA de Chartres, esteve à cabeça do movimento de secundaristas. Ela soube, no marco da luta, impor a perspectiva política até chegar a ser a porta-voz legítima da juventude radicalizada.

No entanto, a crise nos indica que devemos nos preparar para situações todavia mais agudas que a que conhecemos recentemente. Nesta poderosa mobilização, apesar de uma consciência política começou a se desenvolver na classe operária, não foi possível impor o problema do poder e tão pouco foi aberta uma situação revolucionária. Agora bem, é justamente para uma situação revolucionária que devemos nos preparar em um futuro próximo. Este movimento termina sem uma verdadeira derrota da classe operária, nem uma verdadeira vitória da classe burguesa, ainda que esta última pôde contar com a cumplicidade das confederações sindicais que jamais condenaram a repressão policial para com os trabalhadores, as confiscações e desocupações nas refinarias e a negação do direito de greve. Nunca quiseram tomar partido em relação à greve geral, que era a única alternativa para ganhar. O resultado da guerra será decidido em futuras batalhas, e é necessário que nossa classe esteja à altura. Neste sentido, a luta contra a reforma das aposentadorias, para um primeiro ensaio, não está nada mal.

JPO: Europa é o epicentro das contradições da crise capitalista. Depois da Grécia e Irlanda, vemos que esta semana Portugal e Espanha aparecem nas primeiras páginas dos jornais com suas dificuldades econômicas e os fenômenos de resistência dos trabalhadores. O que propõe a plataforma 4 para fazer frente a esta situação?

M.G.: A situação na Europa é muito grave. Em particular, depois das manifestações na Grécia, França, Espanha, é necessário nos deter sobre a situação política na Europa, a análise dos novos desenvolvimentos da crise na União Européia (plano de resgate à Irlanda, fragilidade da economia portuguesa etc.) e os novos ataques que começam a aparecer (medidas de desemprego técnico novamente na França etc.). O poder dos grandes capitalistas que organizam a nível continental o ataque contra todas as conquistas sociais e democráticas, não cessa de impor sacrifícios aos trabalhadores com o objetivo de favorecer os lucros cada vez mais suculentos da ínfima minoria que estrangula a classe operária. O epicentro da crise é a Europa, sua propagação corre o perigo de se extender sobre outros continentes e frente a esta expansão da crise, seja na Europa ou em outro lugar, os trabalhadores e os jovens se levantarão.

No entanto, para lutar e para ganhar contra o capitalismo e os Estados burgueses, os trabalhadores devem adquirir uma consciência de classe, quer dizer a consciência de seu papel na sociedade tal como o concebe a teoria marxista, e tomar confiança de sua capacidade de organizar a sociedade, sem submeter-se à classe dominante. É nesta direção que nós queremos levar à classe trabalhadora para fazer frente a esta situação e este é o sentido de nosso combate no NPA.

Fonte: FT-CI, 2 de dezembro de 2010



Leave a Reply